Daraxonrasib: o medicamento que vem mudar o cancro do pâncreas

Daraxonrasib: o medicamento que vem mudar o cancro do pâncreas


Durante décadas, o cancro do pâncreas metastático foi sinónimo de opções limitadas e prognósticos difíceis. Esta semana, no congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), em Chicago, essa realidade mudou.

Os resultados do ensaio clínico de fase 3 RASolute 302, publicados simultaneamente no New England Journal of Medicine, mostraram que o daraxonrasib, um novo medicamento oral, quase duplica a sobrevivência em doentes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratados, em comparação com a quimioterapia.

A apresentação dos dados foi recebida com uma ovação de pé de 42 segundos, que não é comum em congressos científicos.

 Imagem: www.asco.com

 

O que é o daraxonrasib

É um inibidor oral do estado RAS(ON), o primeiro da sua classe a chegar a fase 3. Atua sobre a proteína KRAS, presente em mais de 90% dos cancros do pâncreas, bloqueando o sinal que alimenta o crescimento tumoral. A diferença em relação a outros inibidores já existentes é que não depende de uma mutação específica: funciona em múltiplas variantes RAS e mesmo em tumores sem mutação RAS identificada. Toma-se por via oral, uma vez por dia.

Imagem: Pinterest

O ensaio incluiu 500 doentes de três continentes, aleatorizados para receber daraxonrasib ou quimioterapia à escolha do médico.

Os resultados foram consistentes em todos os grupos analisados:

  • Sobrevivência global: 13,2 meses com daraxonrasib vs. 6,7 meses com quimioterapia
  • Sobrevivência livre de progressão: 7,2 meses vs. 3,6 meses
  • Taxa de resposta objetiva: 31,6% vs. 11,2%
  • Redução do risco de morte: 60% 

Para contexto: antes deste estudo, a sobrevivência mediana com quimioterapia de segunda linha era de 6 a 7 meses. A taxa de sobrevivência a 5 anos no cancro do pâncreas metastático é de cerca de 3%.

 

Imagem: Pinterest


Um dado que importa tanto quanto a eficácia:
apenas 1,2% dos doentes abandonaram o tratamento com daraxonrasib por toxicidade, contra 11,2% no grupo da quimioterapia. Os efeitos mais comuns foram rash cutâneo e estomatite, muito diferentes do perfil da quimioterapia clássica. 

Os dados serão agora submetidos à FDA, a agência norte-americana do medicamento, equivalente ao nossa Infarmed, para pedido de aprovação formal.

O fármaco está já a ser testado em primeira linha de tratamento e noutros tumores com mutações RAS. Os investigadores trabalham também na compreensão dos mecanismos de resistência e em combinações com outros medicamentos.

Em Portugal, como em toda a Europa, o acesso dependerá do processo regulatório da EMA, a Agência Europeia do Medicamento, responsável pela avaliação e aprovação de novos fármacos nos países da União Europeia e das decisões de financiamento nacionais, um caminho que pode demorar anos.

É importante que os doentes saibam que este avanço existe, e que possam colocar as perguntas certas às suas equipas médicas.

 

Fontes: ASCO Annual Meeting 2026, Abstract LBA5; New England Journal of Medicine, 31 de maio de 2026

Voltar para o blogue