Com um orçamento de 15,8 milhões de euros do programa Horizonte Europa, o projeto ResPECT vai desenvolver um assistente de inteligência artificial generativa que escuta os doentes com cancro da mama ou depressão nas suas próprias palavras. A Fundação Champalimaud, em Lisboa, lidera o desenvolvimento da tecnologia que está no coração do projeto.
O que os questionários não conseguem medir
Milhões de pessoas na Europa vivem com cancro da mama ou depressão e carregam um peso físico, psicológico, social e financeiro que raramente chega, por inteiro, ao consultório. Os instrumentos que hoje recolhem a perspetiva dos doentes são úteis, mas acabam por converter experiências complexas em pontuações numéricas.
Do outro lado, os profissionais de saúde trabalham com dados clínicos dispersos, uma carga crescente de documentação e ferramentas digitais nem sempre bem integradas na prática diária. É neste espaço entre o que o doente sente e o que o sistema regista que o ResPECT quer intervir.
O projeto, cujo nome completo é ResPECT: Generative AI Assistant: A Paradigm Shift in Burden Assessment for Cancer and Mental Health Care, foi financiado no âmbito do concurso GenAI4EU, dedicado a aplicações de IA generativa na saúde pensadas para os utilizadores finais. Terá a duração de quatro anos e inclui uma avaliação clínica em oito países europeus.
Dois assistentes, dois níveis de decisão
O ResPECT vai criar um assistente virtual multilingue, fiável e em conformidade com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). A solução divide-se em duas vertentes, uma centrada na relação entre doente e médico, outra pensada para quem planeia e gere os sistemas de saúde.

Imagem: Projeto ResPECT
Assistente Médico
O Assistente Médico cruza as experiências relatadas pelos doentes com a informação clínica relevante e com o conhecimento das orientações clínicas. Permite ao doente descrever, por palavras suas, sintomas, preocupações e necessidades, e devolve ao profissional de saúde sínteses concisas, estruturadas e clinicamente relevantes.
O objetivo é aliviar a carga cognitiva e o tempo dedicado à documentação, favorecendo cuidados atempados e baseados na evidência. A ferramenta será testada num ensaio clínico multicêntrico, aleatório e controlado, com doentes com cancro da mama em estádio inicial ou com depressão moderada a grave.
Assistente de Políticas de Saúde
O segundo assistente trabalha à escala dos sistemas de saúde. Ao agregar informação estruturada sobre as experiências dos doentes em diferentes populações, ajudará a identificar necessidades por satisfazer, padrões no peso da doença e lacunas nos cuidados.
Métricas de monitorização das desigualdades permitirão comparar regiões, grupos de doentes e sistemas de saúde. Esta informação servirá de base à definição de referências de desempenho, à afetação de recursos e a políticas de saúde mais ajustadas às necessidades reais.
Um consórcio europeu com Lisboa no centro da tecnologia
Coordenado pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, o ResPECT reúne 22 parceiros: centros clínicos de referência, especialistas em IA e saúde digital, associações de doentes, economistas da saúde, peritos em políticas públicas e líderes internacionais em metodologia. Entre os seus membros estão os co-coordenadores das Lancet Commissions dedicadas ao cancro e aos sistemas de saúde e aos efeitos da pandemia de COVID-19 na saúde mental.
“Com o ResPECT, queremos transformar as experiências vividas pelos doentes em informação concreta que permita melhorar os cuidados e tornar os sistemas de saúde mais inteligentes em toda a Europa”, afirma André Pfob, coordenador do projeto na Universidade de Heidelberg e no Hospital Universitário de Heidelberg.

Imagem: Projeto ResPECT
Portugal tem um papel de destaque. A Fundação Champalimaud participa através do Breast Cancer Research Programme (BCRP) e do Digital Neurotherapeutics Centre (DNTx), trazendo competências em oncologia, saúde mental, inteligência artificial e saúde digital centrada no doente.
Cabe à instituição lisboeta liderar o desenvolvimento da tecnologia de IA que sustenta todo o projeto. “Esta permitirá captar e interpretar as experiências dos doentes, através das suas próprias palavras, e transformar a forma como tradicionalmente medimos e comunicamos os resultados em saúde”, explica Maria João Cardoso, diretora do BCRP. A abordagem será depois testada em contexto clínico real, mantendo doentes e profissionais no centro do processo.
A Fundação Champalimaud vai ainda traduzir as necessidades de doentes e clínicos em requisitos práticos, através de processos de codesign, e recrutar participantes com cancro da mama ou depressão para o ensaio clínico.
Inovação com ética e proteção de dados
O ResPECT integra o GenAI4Health Cluster, que junta iniciativas europeias focadas na utilização responsável da IA generativa em medicina e cuidados de saúde. Esta ligação coloca o projeto num esforço mais amplo para articular inovação tecnológica, implementação clínica e cuidados centrados no doente, sem perder de vista a ética, a proteção de dados e o enquadramento regulamentar.
A ambição é clara: em vez de reduzir a vivência dos doentes a questionários de resposta fechada, dar-lhes espaço para contarem o que estão a viver. Essas vozes serão convertidas em informação útil para os profissionais de saúde e em evidência comparável para os decisores políticos, com vista a sistemas de saúde mais responsivos, eficientes e sustentáveis em toda a Europa.
Fonte: Comunicado de imprensa “Transformar a experiência dos doentes em melhores cuidados: a Europa lança o assistente de IA ResPECT”, emitido pela Universidade de Heidelberg Ruprecht Karl, coordenadora do projeto, e adaptado pela Fundação Champalimaud. Projeto financiado pela União Europeia (acordo de subvenção n.º 101287711).