Regresso ao trabalho após cancro da mama: metade das mulheres considera o processo difícil

Regresso ao trabalho após cancro da mama: metade das mulheres considera o processo difícil

Um estudo da Sociedade Portuguesa de Senologia, com 559 participantes, mostra que fadiga, medo de recidiva e falta de planeamento continuam a dificultar a reintegração profissional. A recomendação é clara: o regresso deve ser preparado e gradual.

Terminar os tratamentos não significa voltar à vida profissional como se nada tivesse acontecido. Esta é a principal mensagem do relatório "Regresso ao trabalho após cancro da mama", promovido pela Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS) em colaboração com o Departamento de Ciências Matemáticas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Os resultados foram apresentados a 14 de outubro, no Fórum Vozes ROSA, em Alcobaça, pelas oncologistas Susana Sousa, diretora do Serviço de Oncologia da ULS Tâmega e Sousa, e Mónica Nave, oncologista no Hospital da Luz. Ambas coordenam o Grupo de Trabalho Reinserção Social e Profissional da SPS. O encontro antecedeu as Jornadas Nacionais de Senologia, que decorreram a 15 e 16 de outubro.

Um regresso pouco preparado

O questionário, aplicado online entre maio e setembro de 2026, reuniu as respostas de 559 mulheres com diagnóstico de cancro da mama. Embora 84% estivessem a trabalhar no momento do inquérito, os números revelam um percurso exigente:

  • 52,4% classificaram o regresso ao trabalho como difícil ou muito difícil;
  • 60% demoraram mais de seis meses a regressar;
  • apenas metade teve um regresso planeado previamente;
  • 36,3% sentiram-se pouco ou nada preparadas para esta transição.

Na maioria dos casos (64%), o regresso foi imediato. Apenas 29% retomaram a atividade de forma gradual e 7,1% de forma intermitente.

Para Mónica Nave, era essencial dar voz às próprias doentes. "Embora a experiência clínica nos permita identificar muitas das dificuldades associadas ao regresso ao trabalho, sentimos que era fundamental ouvir as próprias mulheres", explica a oncologista.

Limitações que nem sempre se veem

O impacto da doença prolonga-se muito para além da fase de tratamento mais intensivo. Mais de metade das participantes (56,7%) referiu fadiga persistente intensa ou muito intensa. Os sintomas vasomotores atingiram essa intensidade em 53,5% dos casos e as alterações cognitivas em 51,5%.

A dimensão psicológica pesa de forma igualmente significativa. O medo de recidiva associado ao stress profissional foi apontado com intensidade elevada por 59,2% das mulheres. A preocupação em não corresponder às exigências do trabalho afetou 49,6% e a ansiedade associada ao regresso 48,5%.

Falta de informação e apoio desigual

O estudo identifica também lacunas importantes ao nível da informação e do acompanhamento. Cerca de 36,3% das participantes sentiram uma falta intensa ou muito intensa de informação sobre os seus direitos laborais, e apenas 32% afirmaram não ter precisado de apoio psicológico.

A resposta das entidades empregadoras revelou-se desigual: 40,6% avaliaram o apoio recebido como elevado ou muito elevado, enquanto 31% o consideraram nulo ou reduzido.

Susana Sousa sublinha a necessidade de sensibilizar equipas clínicas, empregadores e colegas de trabalho. "Muitas destas limitações não são imediatamente visíveis, mas têm impacto real na vida profissional", alerta.

O que faria a diferença

Questionadas sobre os apoios que teriam facilitado o regresso, as participantes destacaram:

  • horário flexível (41%);
  • informação clara sobre direitos laborais (38%);
  • apoio psicológico (31%);
  • programa estruturado de reabilitação (25,2%);
  • teletrabalho (24,4%).

Uma transição, não o fim da baixa

Para a SPS, a reinserção profissional deve fazer parte integrante do acompanhamento das mulheres com cancro da mama, com especial atenção ao planeamento do regresso, à informação sobre direitos, ao apoio psicológico e à adaptação das condições de trabalho.

As coordenadoras do grupo de trabalho resumem a posição da sociedade científica: o regresso ao trabalho não deve ser visto como o fim da baixa médica, mas como um processo de transição que exige planeamento, acompanhamento adequado e condições flexíveis, para que cada mulher retome a sua atividade de forma sustentável.

Sobre o estudo

A amostra é composta maioritariamente por mulheres entre os 45 e os 54 anos (49,6%), com escolaridade superior (69,6%) e residentes nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo (53,1%) e Norte (25%). A maioria (43%) tinha sido diagnosticada há um a três anos. Trata-se de um estudo descritivo, pelo que os resultados não permitem estabelecer relações de causalidade nem ser generalizados a todas as mulheres com cancro da mama em Portugal.



Fonte: Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS), comunicado de imprensa "Regresso ao trabalho após cancro da mama deve ser uma transição planeada e gradual", Alcobaça, 15 de outubro de 2026. Relatório "Regresso ao trabalho após cancro da mama", desenvolvido em colaboração com o Departamento de Ciências Matemáticas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Ler o estudo completo (PDF)

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