Há quem saia de uma consulta com a cabeça cheia de respostas. Inês Batista saía quase sempre com as perguntas que não tinha conseguido fazer. Descobriu que tinha cancro da mama aos trinta e oito anos, depois de sentir um nódulo muito pequeno na mama durante um banho, ao fim de um dia de trabalho. Não tinha historial na família e a vida corria-lhe bem. Tinha acabado de montar o seu atelier de costura e de dar o passo sempre difícil de começar a trabalhar por conta própria.
O que a Inês conta com mais franqueza é o que lhe aconteceu a seguir: ficou calada. "Estive durante o processo todo muito apática. Deixei muito que decidissem por mim. Não conseguia verbalizar as questões que tinha.", relembra. Fora do consultório a cabeça era só perguntas; lá dentro, bloqueava. Levou tudo a peito, mas em silêncio. À sua volta toda a gente lhe dizia que ia ser rápido e que tinha tido sorte. A realidade mostrou-lhe outra coisa. "É um processo muito lento. Mesmo quando acaba, não acaba", confessa. É essa a frase que hoje repete às mulheres que a procuram, porque teria preferido que alguém lhe tivesse dito a ela logo no início.
Encontrar a própria voz
O apoio chegou de onde menos esperava. Foi em grupos de mulheres com o mesmo diagnóstico que encontrou as respostas concretas e vividas na primeira pessoa que as consultas de cinco minutos não lhe davam. Com elas percebeu que ser ouvida também exige encontrar a própria voz. Aprendeu a levar as perguntas escritas no telemóvel para não as perder pelo caminho, e aprendeu que, se houver uma próxima vez, não vai sozinha ao hospital. Por trás desta certeza está um medo que a Inês não esconde: o de que o cancro possa voltar. É um receio que continua presente depois dos tratamentos, mas com o qual vai aprendendo a viver.
Corações costurados à mão
Na véspera da cirurgia, já internada, a Inês recebeu das mãos de duas voluntárias um coração de tecido. Era uma almofada feita para repousar debaixo do braço e guardar o peito operado, como um abraço que fica. Modista de profissão, a Inês olhou para ela e disse logo que queria fazer mais. Demorou muito mais do que o mês que tinha imaginado, mas acabou por costurar muitas. Esgotaram num instante e uma delas chegou aos Açores, algo que nunca imaginou. O que viveu em silêncio transformou-se em algo que outras mulheres podem levar consigo.
A Inês aprendeu a não guardar as perguntas só para si. Agora é a vez de a ouvirmos.
Vê o vídeo e conhece a sua história. A Inês leva a peito. E tu?
